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| » SÓ TENDO A MORTE QUASE CERTA É QUE O POVEIRO NÃO VAI AO MAR - AQUI, O HOMEM É ACIMA DE TUDO PESCADOR |
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Depende do mar e vive do mar: - diz-nos Raúl Brandão, cria-se no barco e entranha-se de salitre. Desde que se mete a terra o poveiro modifica-se; perde em agilidade e equilíbrio, hesita, balança-se, não sabe onde pôr os pés.
Conheço esses homenzarrões brancos e espessos, de cara rapada ou suiças, barrete na cabeça e calça branca de lã, desde que me conheço. Iam dormir à Foz dentro de lanchas e todas as tardes o moço passava à minha porta com o barril da água à cabeça.
Dormiam no rio cobertos com a vela, e primeiro que pregassem olho era um falatório que se ouvia em toda a vila.
O pescador poveiro ignora tudo fora da sua profissão, mas essa conhece-a como nenhum outro pescador. Sabe onde está o banco da sardinha pelo vôo dos mascatos, que lá do alto cai a prumo sobre o cardume; quando ela anda terrenha, isto é, perto da costa, e torneira ou à flor das águas.
Sabe tudo do mar da Cartola que dá a pescada, o da Ferralhuda, que dá à raia, o da gata, que dá raia e cação, o Bianco, o Lameirão, etc.
Acima de tudo, está Deus, e para eles o Senhor do Mar é que dá a fome e a fartura.
António Nobre, dedicou alguns dos seus versos ao PESCADOR POVEIRO com quem conviveu nas praias de Matosinhos e Leça, e em cujas lanchas embarcava.
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Georges! anda ver meu país de Marinheiros,
O meu país das Naus, de esquadras e de frotas!
Oh! as lanchas dos poveiros
A sairem da barra, entre ondas e gaivotas
Que estranho é!
Fincam o remo na água, até que o remo força
À espera da maré.
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Epopeia dos Humildes |
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| A partida... |
Os outros lá vão seguindo
Rua fora, até ao cais.
O mar parece dormindo...
Nisto grita o velho arrais: |
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Desponta o dia. Pelas ruas
Vão deslizando, apressados,
Saco ao ombro, pernas nuas,
Os pescadores ensonados |
Entra na água rugindo
Como o leão, ao saltar;
E o mar, não o sentido,
Continua a dormitar... |
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Então um de cada grupo
Vai batendo, porta em porta...
- Quem ´stá lá? Perguntam dentro.
- Vamos p´ró mar; em resposta |
Deus vos guie! Boa sorte!
Dizem as mulheres, em pranto,
Por se lembrarem que a morte
Os espreita tanto, tanto! |
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Os outros lá vão seguindo
Rua fora, até ao cais.
O mar parece dormindo...
Nisto grita o velho arrais: |
Leme posto, içada a vela,
Vai lentamente a singrar,
Enquanto a última estrela
Vai perdendo o seu brilhar... |
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